Em um domingo de céu claro e temperatura amena em boa parte do país, o Brasil voltou a assistir à força mobilizadora das ruas. Sob o mote Acorda Brasil, manifestações convocadas por lideranças da direita reuniram milhares de pessoas em diversas capitais e cidades do interior, em protestos dirigidos ao governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva e ao Supremo Tribunal Federal, com especial atenção às figuras dos ministros Alexandre de Moraes e Dias Toffoli. Ao longo do dia, as cenas se repetiram com variações locais: bandeiras verde e amarelas, camisetas da seleção, carros de som, cartazes, faixas e oradores alternando críticas ao Planalto, à Corte constitucional e, sobretudo, a decisões judiciais relacionadas aos atos de 8 de janeiro de 2023.
A Avenida Paulista, em São Paulo, voltou a ser o principal palco simbólico dessa mobilização. Ali, em trecho próximo ao Masp, manifestantes se concentraram desde o início da tarde, compondo um cenário que, ao mesmo tempo, evocava memórias recentes de grandes atos políticos e sinalizava a tentativa de reorganização de um campo que se mantém ativo e ruidoso no espaço público. Estimativas do Monitor do Debate Político da USP/Cebrap, em parceria com a ONG More in Common, apontaram cerca de 20 mil pessoas presentes no ápice do ato, enquanto outras medições situaram o público em patamar semelhante, o que confere aos protestos uma dimensão significativa no contexto atual.
Sobre os caminhões de som, a presença de figuras de proa do bolsonarismo e da direita institucional foi determinante para o tom e o conteúdo político das manifestações. O senador Flávio Bolsonaro, apontado por seu pai como principal nome do PL para a disputa presidencial de 2026, assumiu papel central na Paulista, transformando o ato em vitrine de seu protagonismo e de sua pretensão de liderar a oposição ao governo Lula. Ao seu lado, compareceram o deputado federal Nikolas Ferreira, articulador da convocação nacional, os governadores Ronaldo Caiado, de Goiás, e Romeu Zema, de Minas Gerais, além de líderes partidários como Valdemar Costa Neto, presidente do PL, e outras figuras ligadas ao campo conservador.
Os discursos intercalaram críticas duras ao Executivo e ao Judiciário, pedidos de impeachment de ministros do STF, questionamentos às penas aplicadas a envolvidos nos ataques às sedes dos Três Poderes, em Brasília, e um refrão que se repetia em cartazes, camisetas e palavras de ordem: anistia para os condenados de 8 de janeiro e liberdade para o ex-presidente Jair Bolsonaro. Em meio à multidão, faixas estampavam expressões como Fora Lula, Fora Moraes, Fora Toffoli, Ditadura veste toga e Anistia já, compondo uma gramática visual que não deixava dúvidas sobre o alvo político das insatisfações ali vocalizadas.
Embora São Paulo tenha concentrado a maior atenção midiática, não foi a única cidade a registrar atos expressivos. No Rio de Janeiro, a orla de Copacabana voltou a servir de cenário para uma manifestação em defesa de Bolsonaro e contra Lula e o STF, em um percurso que mesclou carros de som, oradores e um público trajado majoritariamente de verde e amarelo. Ali, o deputado Carlos Jordy, um dos principais nomes da oposição na Câmara, enfatizou o que chamou de berço do bolsonarismo, conclamando os presentes com palavras de ordem que pediam a saída do presidente e criticavam duramente o Supremo.
Brasília também foi palco de mobilização, com concentração em frente ao Museu da República, na Esplanada dos Ministérios, onde senadores e deputados alinhados ao campo conservador discursaram em defesa do perdão aos condenados de 8 de janeiro e contra o que classificam como arbitrariedades judiciais. Em Belo Horizonte, o ato reuniu novamente Nikolas Ferreira e o governador Romeu Zema, reforçando o esforço de projetar uma espécie de frente de direita articulada para o ciclo eleitoral de 2026.
Em outras capitais, o roteiro se repetiu com nuances locais. Em Campo Grande, manifestantes se concentraram na praça do Rádio Clube e seguiram em carreata pela Avenida Afonso Pena, com carros ornamentados por bandeiras nacionais e faixas pedindo a saída de ministros do STF e anistia para Bolsonaro. Em Recife, a Avenida Boa Viagem viu desfilar um grupo que, embora menor, manteve o mesmo repertório de slogans e reivindicações, com cartazes em defesa do ex-presidente e pedidos de clemência para os participantes dos atos golpistas. Em Curitiba, a tradicional Boca Maldita voltou a cumprir seu papel de ágora política, reunindo manifestantes que carregavam faixas com frases como Fora Lula, Fora Toffoli e Ditadura veste toga, ao som de gritos pela liberdade de Bolsonaro e contra o STF.
Salvador, Goiânia, Porto Alegre, Maceió, Fortaleza e outras cidades também registraram concentrações, carreatas ou caminhadas, compondo um mosaico que, ainda que distante da escala de mobilizações de anos anteriores, mostra a persistência de um segmento expressivo e organizado da sociedade disposta a ocupar as ruas em defesa de uma agenda conservadora e de contestação ao governo federal e à Suprema Corte. Em alguns casos, houve inclusive registros de atos fora do país, como em Paris, o que sugere a tentativa de projetar o alcance simbólico da mobilização para além das fronteiras nacionais.
O ambiente dos protestos foi marcado, em sua maior parte, por clima de indignação politizada, mas também de ritualização de símbolos nacionais. Bandeiras do Brasil, dos Estados Unidos e de Israel apareceram em massa, compondo um imaginário transnacional já familiar nas manifestações da direita brasileira desde 2016. Cartazes com dizeres como SOS Trump e referências a figuras políticas estrangeiras reforçaram a conexão de parte do movimento com uma constelação de lideranças conservadoras globais, indicando que o repertório simbólico desses protestos se insere em um contexto mais amplo de circulação internacional de slogans e narrativas.
Do ponto de vista institucional, os atos também têm implicações que ultrapassam o registro pontual. A insistência no tema da anistia para os condenados pelos atos de 8 de janeiro recoloca na arena pública um debate sensível, que envolve a responsabilização por ataques às instituições democráticas e o papel do STF como guardião da Constituição. Ao mesmo tempo, a insistência em discursos contra ministros da Corte alimenta um clima de tensão permanente entre parte expressiva da direita e o Judiciário, tensionando os limites da crítica política legítima e da deslegitimação sistemática das instituições.
Em paralelo, a centralidade atribuída a Flávio Bolsonaro nesses atos indica um movimento de reorganização interna do campo bolsonarista, que parece testar, nas ruas, o potencial do senador como herdeiro político do capital eleitoral do pai. Ao lado de figuras como Nikolas Ferreira, Silas Malafaia e governadores alinhados, o senador se apresenta como rosto institucional de uma direita que busca manter coesa sua base mais fiel, ao mesmo tempo em que tenta dialogar com segmentos mais amplos do eleitorado conservador.
À medida que a tarde de domingo avançava e os atos iam se dispersando, a paisagem das cidades voltava gradualmente à sua normalidade aparente. As ruas eram liberadas, os carros de som desmontados, as bandeiras recolhidas. No entanto, o que permanece, para além da espuma do momento, é a constatação de que o Brasil continua a ser um país onde as ruas seguem desempenhando papel central na disputa de narrativas e na construção de legitimidades. Os protestos contra Lula e o STF, espalhados por mais de vinte cidades, não esgotam o mapa da opinião pública, mas revelam a vitalidade de um segmento que não se resigna à condição de minoria silenciosa e que escolhe, reiteradamente, a praça, a avenida e a orla como palco para suas inquietações e suas apostas políticas.
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Marcelo Henrique de Carvalho, editor-chefe
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