A mais recente sessão da Comissão Parlamentar Mista de Inquérito do INSS, em Brasília, terminou em tumulto, empurrões e troca de acusações, mas não sem antes produzir um gesto de forte impacto político: a aprovação da quebra dos sigilos bancário e fiscal de Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha, filho mais velho do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. A decisão, tomada em votação simbólica e em bloco, insere o entorno familiar do chefe do Executivo no centro de uma investigação que, originalmente, mirava fraudes em descontos associativos ilegais sobre aposentadorias e pensões do INSS, e passa agora a ser mais um palco antecipado da disputa eleitoral de 2026.
O requerimento de quebra de sigilo foi apresentado pelo relator da CPMI, deputado Alfredo Gaspar (União Brasil‑AL), e aprovado em meio a um pacote de 87 pedidos apreciados de uma só vez, o que inflamou os ânimos da base governista. Ao final da leitura e da declaração de resultado pelo presidente da comissão, senador Carlos Viana (Podemos‑MG), parlamentares aliados ao governo cercaram a mesa diretora, contestando a votação em globo e a contagem de apoiadores, e a sessão degenerou em empurra‑empurra, gritos e alguns socos, levando à suspensão dos trabalhos.
Na prática, a decisão da CPI permite que a comissão tenha acesso a extratos, movimentações financeiras, declarações de Imposto de Renda e contratos em nome de Fábio Luís referentes ao período de 2022 até janeiro de 2026, com o objetivo declarado de verificar a existência de pagamentos recorrentes que possam estruturar o que adversários vêm chamando de “mesada” de R$ 300 mil, supostamente paga por um lobista apelidado de Careca do INSS. Segundo Alfredo Gaspar, há indícios de que o filho do presidente teria atuado como “sócio oculto” de Antônio Carlos Camilo Antunes, o Careca, apontado pela Polícia Federal como peça central no esquema de fraudes envolvendo consignados e descontos indevidos em benefícios previdenciários.
A inclusão de Lulinha no foco da CPMI decorre de elementos compartilhados pela Polícia Federal com o Supremo Tribunal Federal. Em diferentes fases da investigação, a PF encontrou mensagens trocadas entre o Careca e a empresária Roberta Luchsinger, amiga de Fábio Luís, em que se faz referência a pagamentos significativos – um deles, de R$ 300 mil – destinados à empresa de Roberta. Em determinado diálogo, ao ser questionado sobre quem seria o destinatário final do dinheiro, o lobista responde tratar-se do “filho do rapaz”, expressão que investigadores interpretam como referência ao filho do presidente.
Roberta Luchsinger, que já foi alvo de operação da PF no fim de 2025 sob suspeita de ter recebido R$ 1,5 milhão do Careca para atuar junto a órgãos de saúde na venda de produtos de cannabis medicinal, nega irregularidades e afirma que sua relação com Fábio Luís é de amizade, sem vínculo com as fraudes no INSS. Relatórios anteriores da própria PF enviados ao STF indicavam que, naquele momento, não havia evidências de participação direta de Lulinha nos delitos, embora as menções a ele em conjuntos distintos de dados justificassem, na avaliação dos investigadores, o aprofundamento das diligências.
Antes mesmo da decisão da CPI, o filho do presidente já estava sob escrutínio judicial. Em janeiro, o ministro André Mendonça, do Supremo, havia autorizado – em decisão sob sigilo – a quebra dos sigilos bancário, fiscal e telemático de Fábio Luís, a pedido da Polícia Federal, justamente para apurar se ele teria atuado como sócio oculto do Careca do INSS e beneficiário de pagamentos relacionados ao esquema. A aprovação da quebra pela CPMI, portanto, não inaugura a devassa, mas amplia o círculo de acesso às informações: além de PF e STF, agora também parlamentares e técnicos a serviço da comissão poderão examinar os dados, o que intensifica a dimensão política do caso.
É justamente aí que reside uma das chaves de leitura do episódio. Como registrou a comentarista Andreia Sadi, a votação que atingiu o filho de Lula expôs a ruptura de um pacto informal de não agressão que, até então, preservava, em certa medida, tanto o núcleo duro do governo quanto a família Bolsonaro em algumas frentes de investigação. Com a aprovação da quebra de sigilo de Lulinha, sob o olhar atento de oposicionistas que já defendem também a reabertura de frentes contra filhos do ex-presidente Jair Bolsonaro, a CPMI do INSS se converte em mais um palco antecipado da disputa por 2026, na qual Lula e o bolsonarismo devem, de alguma forma, medir forças.
A base governista reagiu com virulência. Lideranças como o senador Randolfe Rodrigues (PT‑AP), líder do governo no Congresso, anunciaram que pedirão ao presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União‑AP), a anulação da votação, sob o argumento de que houve irregularidades na inclusão de requerimentos já rejeitados anteriormente e na adoção de voto em bloco para temas sensíveis, como quebras de sigilo. Randolfe acusou a comissão de promover “investigação seletiva”, voltada apenas a um espectro político, e afirmou que o governo não teme investigações, mas exige respeito ao regimento.
A presidência do Congresso informou que Alcolumbre analisará as imagens e os procedimentos com apoio da Advocacia do Senado, da Polícia Legislativa e da Secretaria-Geral da Mesa, sem prazo definido para decisão. Até lá, a deliberação da CPI permanece válida e produz efeitos, a não ser que seja suspensa por decisão judicial ou revertida em nova votação.
Na oposição, o tom é de comemoração. Parlamentares do PL, do Novo e de segmentos do União Brasil afirmam que a quebra de sigilo de Lulinha é “passo necessário” para esclarecer o papel de eventuais figuras de influência política em esquemas que atingem diretamente aposentados e pensionistas. O relator Alfredo Gaspar sustenta que “não há cidadão imune à investigação” e que as menções ao filho do presidente em trocas de mensagens e relatórios da PF tornam “inevitável” que a comissão examine suas movimentações.
Para além do embate imediato, a decisão lança uma sombra sobre o ambiente político em que o governo Lula tentava, até aqui, aprovar reformas e agendas econômicas com negociações delicadas no Congresso. A exposição do filho do presidente em uma CPI ruidosa, transmitida ao vivo, tende a alimentar narrativas de adversários e a exigir esforços adicionais de contenção de danos por parte do Palácio do Planalto, tanto no plano parlamentar quanto na opinião pública.
Resta saber se a devassa sobre as contas de Lulinha produzirá evidências concretas de ilícitos capazes de alterar o curso das investigações ou se se somará a uma longa lista de episódios em que a suspeita política não encontrou lastro penal robusto. De todo modo, o gesto da CPI, ao aprovar a quebra de sigilo do filho do presidente, confirma que a fronteira entre apuração de fraudes previdenciárias e disputa eleitoral se tornou, mais uma vez, tênue no Congresso Nacional.
Marcelo Henrique de Carvalho, editor-chefe
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