Levantamento aponta que duas em cada três mulheres atendidas por violência não letal já haviam sofrido agressões no mesmo ano.
A violência doméstica contra mulheres no Brasil apresenta forte padrão de repetição, segundo dados do Atlas da Violência 2026, produzido pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada e pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública. O levantamento aponta que 66,2% das mulheres atendidas pela rede de saúde por violência não letal relataram ter sofrido vários episódios de agressão no mesmo ano.
O dado reforça que, em muitos casos, a violência não ocorre como episódio isolado. Ela se repete dentro de casa, em relações familiares ou afetivas, e pode evoluir para situações mais graves quando não há denúncia, acolhimento, proteção efetiva e acompanhamento da vítima.
De acordo com o estudo, 293.842 mulheres foram vítimas de violência não letal no Brasil. A maior parte dos casos ocorreu no ambiente doméstico, com 187.958 registros, o equivalente a 64% do total. O levantamento também aponta alta incidência de agressões na residência da vítima.
Os números evidenciam um desafio para a segurança pública, a saúde, a assistência social e o sistema de Justiça. A reincidência mostra que a mulher agredida muitas vezes permanece exposta ao agressor, seja por dependência financeira, medo, ameaça, filhos, falta de rede de apoio ou dificuldade de acessar os serviços de proteção.
A violência doméstica pode envolver agressão física, psicológica, sexual, moral e patrimonial. Nem sempre começa com violência física. Controle excessivo, humilhações, ameaças, isolamento, retenção de dinheiro, destruição de objetos, perseguição e chantagens também são sinais de alerta.
Para especialistas, a repetição dos episódios exige resposta rápida do poder público. O registro da ocorrência, a solicitação de medida protetiva, o acolhimento psicológico e social e o acompanhamento das famílias são etapas fundamentais para reduzir riscos.
O Atlas também reforça a importância da rede de saúde no enfrentamento à violência contra a mulher. Muitas vítimas chegam aos serviços médicos após agressões, crises emocionais ou lesões, e esse atendimento pode ser decisivo para identificar o risco e encaminhar a mulher aos órgãos competentes.
Em São Paulo, o tema tem impacto direto para municípios, delegacias, unidades de saúde, escolas, conselhos tutelares, serviços de assistência social e equipamentos especializados de atendimento à mulher. A integração entre essas áreas é essencial para evitar que a violência se repita até chegar a casos extremos.
A denúncia não deve ser vista apenas como resposta ao crime já ocorrido, mas como instrumento de prevenção. Quando familiares, vizinhos, amigos e profissionais identificam sinais de violência, a orientação é acionar os canais oficiais e não minimizar ameaças ou agressões recorrentes.
O enfrentamento à violência doméstica depende de proteção imediata à vítima, responsabilização do agressor e fortalecimento das políticas públicas. Os dados do Atlas mostram que o país ainda precisa avançar na interrupção do ciclo de agressões antes que ele resulte em mortes, sequelas físicas ou danos emocionais permanentes.
Serviço ao leitor:
Mulheres em situação de violência podem acionar a Polícia Militar pelo 190 em caso de emergência. O Ligue 180 oferece orientação e encaminhamento gratuito. Também é possível registrar boletim de ocorrência na Delegacia Eletrônica, procurar uma Delegacia de Defesa da Mulher ou buscar atendimento na rede municipal de saúde e assistência social.
Vinicius Mororó – Jornalista Atípico
Editor-Executivo-Regional
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