As fortes chuvas que atingiram a região metropolitana de São Paulo na tarde de segunda-feira transformaram ruas em rios e provocaram uma sucessão de alagamentos em vários municípios. Em Itapecerica da Serra, cidade situada a pouco mais de 30 quilômetros da capital, um episódio de coragem coletiva tornou-se símbolo de esperança em meio ao caos. Uma motorista, surpreendida pela força da enxurrada, foi resgatada por moradores locais que formaram uma corrente humana para salvá-la.
Segundo testemunhas, o incidente ocorreu por volta das 17 horas, em um trecho da Avenida XV de Novembro, onde o volume de água subiu de forma repentina após o transbordamento de um córrego. A motorista, identificada como a comerciante Fernanda dos Santos, de 34 anos, tentava atravessar a via para chegar a seu bairro, quando o carro foi arrastado por uma correnteza impetuosa. Vizinhos que presenciaram a cena contaram que o veículo começou a girar, encostando-se a um poste, e que, a cada minuto, o risco de ser levado pelo fluxo aumentava.
“Ela gritava por socorro e o carro estava sendo tomado pela água. A gente se olhou e decidiu agir na hora”, relatou o operador de máquinas João Carlos Vieira, um dos voluntários que participaram do resgate. Em poucos segundos, ele e outros quatro moradores se agarraram uns aos outros, formando uma espécie de cordão humano que avançou contra a enxurrada até alcançar o veículo. Enquanto os primeiros seguravam uma corda improvisada, feita com mangueiras e lençóis, os últimos garantiam firmeza no apoio, encostando-se em uma grade metálica presa ao muro de uma residência.
De dentro do carro, Fernanda foi orientada a abrir a janela e soltar o cinto de segurança. A operação, realizada sob chuva torrencial e acompanhada por vizinhos que filmavam e gritavam palavras de incentivo, durou cerca de três minutos. Quando o grupo conseguiu puxá-la até o ponto mais alto da rua, aplausos e lágrimas se misturaram à água barrenta. “Foi desesperador, mas também o momento mais humano que já vivi. Se não fossem eles, eu não estaria aqui”, disse Fernanda, ainda tremendo de frio e emoção.
O Corpo de Bombeiros confirmou que recebeu o chamado poucos minutos depois do início da ocorrência, mas, quando chegou ao local, o resgate já havia sido concluído pelos moradores. De acordo com a corporação, a atitude dos voluntários foi arriscada, mas provavelmente decisiva. “Nessas situações, o ideal é aguardar a chegada das equipes especializadas, mas entendemos que o impulso de salvar uma vida fala mais alto. Felizmente, todos estão bem”, afirmou o tenente Marcos Moreira, que chefiou a equipe de apoio.
As chuvas desta semana têm causado transtornos sucessivos em todo o entorno de Itapecerica da Serra, Embu-Guaçu e Taboão da Serra. Segundo a Defesa Civil estadual, em 24 horas, o volume acumulado superou 90 milímetros, quase o dobro da média esperada para o período. Foram registrados deslizamentos de terra, quedas de árvores e interrupções no fornecimento de energia. Em alguns bairros, a água atingiu o interior de casas e comércios, obrigando famílias a se deslocar para abrigos improvisados.
Especialistas apontam que fenômenos desse tipo se tornaram mais frequentes em razão da combinação entre ocupação irregular de áreas de risco e aumento da intensidade das chuvas, resultado direto das mudanças climáticas. Para o geógrafo e pesquisador da Universidade Federal do ABC, André Nogueira, o caso de Itapecerica da Serra ilustra não apenas a vulnerabilidade urbana, mas também a resiliência social. “Há uma face trágica, evidente, e há a beleza do gesto humano. Em meio à falência da infraestrutura, as pessoas ainda são capazes de formar pontes, literalmente, de corpo e alma.”
Na manhã seguinte, o local do resgate já estava seco, mas os rastros do episódio permaneciam visíveis: o asfalto rachado, as marcas de lama nas paredes e uma corda pendurada na grade, testemunho silencioso da noite anterior. Moradores se reuniram novamente, desta vez para limpar a rua e reorganizar o entorno. Fernanda voltou ao ponto para agradecer aos que a ajudaram, levando café e pães como forma de gratidão. “A corrente humana que me salvou representa muito mais do que um ato de coragem. Mostra que ainda existe solidariedade nas nossas ruas. E isso vale mais do que qualquer coisa”, declarou.
O episódio viralizou nas redes sociais após a divulgação de um vídeo feito por um morador. Em poucas horas, as imagens ultrapassaram cem mil visualizações. A Prefeitura de Itapecerica da Serra informou que pretende homenagear o grupo envolvido no resgate, destacando o gesto como exemplo de cidadania e empatia diante das adversidades.
Enquanto as tempestades continuam a ameaçar a região, a história de Fernanda e de seus vizinhos ecoa como lembrete de que, mesmo cercados por águas turbulentas, a coragem e a solidariedade ainda são capazes de manter as pessoas à tona.
Marcelo Henrique de Carvalho, editor-chefe
HostingPRESS – Agência de Notícias de São Paulo. Conteúdo distribuído por nossa Central de Jornalismo. Reprodução autorizada mediante crédito da fonte.

