Pesquisadores da Universidade de Yale publicaram um estudo que expõe um risco preocupante na prescrição de medicamentos para ansiedade em crianças e adolescentes: muitos fármacos psicotrópicos usados para tratar esses quadros acabam agravando ou induzindo obesidade, criando um ciclo vicioso de prescrições inadequadas. A análise, baseada em dados de coortes pediátricas, alerta para a necessidade de maior cautela clínica e para intervenções não farmacológicas prioritárias.
A ligação entre ansiedade infantil e obesidade
A ansiedade em crianças manifesta-se frequentemente por sintomas como agitação constante, evitação social, distúrbios do sono e queixas somáticas, afetando cerca de 7% das crianças em idade escolar nos Estados Unidos, segundo estimativas recentes. Crianças obesas apresentam risco 43% maior de ansiedade e 33% maior de depressão, em comparação com seus pares eutróficos, o que sugere uma bidirecionalidade na associação. Esse entrelaçamento complica o manejo, pois a obesidade amplifica a vulnerabilidade emocional, enquanto fatores estressantes emocionais podem precipitar compulsões alimentares.
O estudo de Yale, liderado por especialistas em psicologia clínica e endocrinologia pediátrica, examinou prescrições em uma amostra de mais de mil crianças com diagnóstico de ansiedade, rastreando o uso de inibidores seletivos da recaptação de serotonina (ISRS), benzodiazepínicos e antipsicóticos atípicos. Entre os prescritos, 28% das crianças ganharam peso significativo nos primeiros seis meses de tratamento, com ganho médio de 4,2 quilos em indivíduos já acima do peso ideal. Antipsicóticos como risperidona e olanzapina foram os mais implicados, com taxas de obesidade induzida superiores a 50% em uso prolongado.t
Prescrições inadequadas e seus mecanismos
A inadequação reside não apenas na escolha do fármaco, mas na ausência de monitoramento metabólico e na preferência por soluções rápidas em detrimento de terapias comportamentais. Medicamentos psicotrópicos interferem no hipotálamo, centro regulador do apetite, promovendo hiperfagia e retardo no metabolismo basal, o que é particularmente danoso em crianças cujos sistemas endócrinos ainda estão em maturação. No estudo, 52% das crianças receberam polimedicação, com dois ou mais psicotrópicos simultâneos, elevando o risco de eventos adversos em 61%, incluindo ganho ponderal exacerbado.
Meninas acima de 12 anos foram mais afetadas, com prescrições de antidepressivos 40% superiores às de meninos, possivelmente por maior prevalência de diagnósticos de ansiedade nesse grupo. Além disso, o uso off-label – comum em pediatria, atingindo 61% das prescrições psicotrópicas – ignora evidências limitadas de segurança em longo prazo para essa população. Os autores destacam que, embora eficazes para sintomas agudos, esses fármacos mediam até 32% da relação entre transtornos ansiosos e obesidade, transformando um tratamento em novo problema de saúde.
Implicações clínicas e recomendações
Os achados de Yale reforçam diretrizes da Academia Americana de Pediatria, que preconizam terapia cognitivo-comportamental como primeira linha para ansiedade infantil, reservando fármacos apenas para casos refratários e com supervisão multidisciplinar. Monitoramento mensal de índice de massa corporal, glicemia e perfil lipídico deve ser obrigatório, especialmente em pacientes com sobrepeso prévio. Intervenções como mindfulness parental e programas de atividade física integrada demonstraram reduzir tanto ansiedade quanto risco obesogênico em 25% das crianças tratadas.
Políticas públicas também entram em cena: no Brasil, onde a obesidade infantil afeta 15% das crianças urbanas, regulamentações semelhantes às europeias poderiam limitar prescrições off-label. Especialistas alertam para o estigma associado, que dissuade famílias de buscar ajuda não medicamentosa, perpetuando o ciclo. O estudo conclama formação continuada para pediatras e psiquiatras infantis, enfatizando que prevenir obesidade iatrogênica exige equilibrar alívio sintomático com preservação da saúde metabólica futura.
Em última instância, o trabalho de Yale não demoniza os psicotrópicos, mas clama por prescrição inteligente, ancorada em evidências robustas e visão holística do desenvolvimento infantil. Assim, evita-se que o remédio para a mente comprometa o corpo em formação.
Marcelo Henrique de Carvalho, editor-chefe
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