A pandemia de Covid-19 acelerou inovações que transcendem o combate viral. Vacinas de RNA mensageiro, herdeiras das plataformas da Moderna e Pfizer, agora prometem revolucionar o tratamento do melanoma, o câncer de pele mais letal. Em estudos clínicos recentes, terapias personalizadas baseadas nessa tecnologia reduziram pela metade o risco de recidiva, ensinando o sistema imunológico a caçar células tumorais com precisão cirúrgica. Tal convergência entre crise sanitária e oncologia sinaliza um paradigma de medicina personalizada, onde o arsenal pandêmico se volta contra o inimigo interno.
Desenvolvida pela Moderna em parceria com a Merck, a terapia intismeran autogene representa o ápice dessa transmutação. Testada em 157 pacientes com melanoma recorrente ou metastático após cirurgia, a combinação com o imunoterápico Keytruda demonstrou queda de 49% no risco de recorrência ou morte após cinco anos de seguimento. Diferentemente das vacinas anticovid, padronizadas para uma proteína viral única, essa abordagem sequencia o DNA tumoral de cada indivíduo, identificando mutações neoantigênicas exclusivas. O mRNA sintético então instrui as células a produzir essas proteínas aberrantes, alertando linfócitos T para uma ofensiva direcionada. O Keytruda, inibidor de PD-1, remove freios imunológicos, ampliando a resposta antitumoral. Efeitos adversos, como fadiga e calafrios, espelharam os das vacinas covid, sem toxicidades graves adicionais.
Pesquisas complementares ampliam o espectro. Um estudo do MD Anderson Cancer Center revelou que vacinas mRNA anticovid reprogramam o microambiente tumoral, elevando a expressão de PD-L1 em melanomas e cânceres pulmonares, tornando-os mais suscetíveis à imunoterapia. Interferons induzidos pelas vacinas “acordam” tumores dormentes, expondo antígenos e potencializando terapias existentes. No Brasil, parcerias como as do Instituto Butantan com a MSD pavimentam a produção local de mRNA oncológico, democratizando acesso.
Desafios e horizontes
Nem tudo é euforia científica. Ensaios de fase III, com milhares de pacientes, testam a robustez desses achados, pois amostras iniciais limitam generalizações. Custo elevado da personalização, dependente de sequenciamento genômico, e logística de produção sob medida desafiam escalabilidade, especialmente em nações em desenvolvimento. Críticos alertam para respostas imunes inconsistentes em subgrupos imunossuprimidos ou com cargas mutacionais baixas. Ainda assim, aprovações regulatórias podem vir em 2026, transformando o melanoma de sentença em condição gerenciável.
Inteligência artificial, outra herança pandêmica, reforça a tríade diagnóstica-tratamento. Algoritmos treinados com imagens dermatoscópicas durante lockdowns atingem 94,5% de precisão na detecção precoce de melanoma, integrando dados clínicos como idade e localização lesional. Plataformas brasileiras, como as da Sociedade Brasileira de Dermatologia, aceleram triagens remotas, mitigando atrasos diagnósticos que explodiram na pandemia, com quedas de 32% em biópsias de pele.
Esperança personalizada
Essa simbiose entre tecnologias covid e oncologia ilustra a resiliência da ciência: adversidades gestam avanços. Para o melanoma, que mata 8 mil brasileiros anualmente, o mRNA oferece não cura universal, mas horizonte de sobrevida estendida, com respostas duradouras em até 50% dos casos refratários. Médicos como Stephen Stefani, da Oncoclínicas, veem nisso oncologia de precisão madura, onde vacinas reprogramam imunidade para o bem maior. Urge investimento público-privado para viabilizar tais terapias, prevenindo o que a exposição solar e mutações inevitáveis semeiam. Do pavor pandêmico à precisão terapêutica, a humanidade tece sua defesa mais sofisticada contra o caos celular.
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