Lula entra em 2026 como candidato declarado a um quarto mandato, e o início de sua campanha pela reeleição reorganiza o tabuleiro político brasileiro em torno de sua figura e de seu projeto de poder.
Lançamento na Bahia e simbolismo político
A escolha da Bahia como palco inaugural da pré-campanha não é casual e revela a preocupação do presidente em reativar seus redutos mais fiéis, em especial o Nordeste. Salvador será o centro das atenções petistas entre 5 e 7 de fevereiro, em um megaevento que combinará a celebração dos 46 anos do PT com o lançamento oficial da pré-candidatura de Lula. O encontro, previsto para ocorrer no Trapiche Barnabé, no bairro do Comércio, terá palestras de ministros, atividades partidárias e apresentações artísticas, em uma tentativa de misturar festa, mobilização de base e sinalização institucional. Dirigentes petistas na Bahia já tratam a decisão como reconhecimento político e eleitoral de um estado que se consolidou como um dos principais bastiões lulistas do país.
A presença de Lula no encerramento desse evento, no dia 7, deve marcar o discurso que dará o tom da campanha, com ênfase em programas sociais, comparação com governos anteriores e defesa da democracia. O slogan interno que orienta o encontro, sintetizado em palavras de ordem como “Para vencer com Lula em 2026”, deixa claro que o partido pretende transformar a mobilização em Salvador numa espécie de ato de largada da disputa presidencial.
Estratégia de governo em ritmo de campanha
O início de 2026 encontra o Palácio do Planalto em um modo de operação que se aproxima cada vez mais de uma agenda de campanha, ainda que formalmente limitada pelo calendário eleitoral. A ordem é intensificar viagens pelo país, inaugurações de obras, anúncios de programas sociais e aparições públicas em que os feitos do governo sejam confrontados com a herança da gestão anterior. Relatos de bastidores apontam que a comunicação oficial passou a adotar tom mais político, explorando comparações de indicadores sociais e econômicos e reforçando a narrativa de que 2026 será “o ano da comparação” entre projetos de país.
Na seara social, a estratégia passa por reforçar programas de alto apelo popular, como o Bolsa Família reestruturado, a promessa de isenção do Imposto de Renda até cinco mil reais, o Gás do Povo e iniciativas voltadas ao crédito e à inclusão produtiva. Ao mesmo tempo, o governo busca equilibrar a pressão por maior gasto social com as amarras fiscais, em meio a críticas de que Lula estaria “desafiando limites fiscais” e usando a máquina pública em benefício direto de seu projeto de reeleição.
Desafios econômicos e políticos
Apesar de iniciar a pré-campanha em posição competitiva nas pesquisas, Lula enfrenta um ambiente mais hostil do que em eleições anteriores. Analistas destacam a combinação de juros elevados, desaceleração econômica, sensação persistente de insegurança nas grandes cidades e um Congresso fragmentado e frequentemente resistente às pautas do Planalto. O governo precisará demonstrar capacidade de entregar resultados perceptíveis em renda, emprego e serviços públicos em um intervalo curto, antes que as restrições eleitorais limitem novas iniciativas.
No campo político, a relação com o Legislativo permanece tensa, marcada por negociações constantes com o centrão e por uma oposição que, embora dividida, encontra na figura de Lula um alvo unificador. A avaliação de especialistas é que a resiliência do petismo será testada não apenas nas urnas, mas na capacidade de manter uma coalizão ampla em torno de um presidente que volta a disputar a reeleição já em idade avançada, alvo, inclusive, de críticas internacionais sobre a conveniência de buscar um novo mandato.
Pesquisas, adversários e desgaste
Pesquisas de opinião divulgadas ao longo de 2025 mostraram Lula na dianteira em todos os cenários testados de primeiro turno, sempre com ampla vantagem sobre potenciais adversários ligados ao bolsonarismo e a outros polos da direita. Em levantamento da Ipsos-Ipec, o presidente aparece com cerca de 38 por cento das intenções de voto em diferentes simulações, mantendo-se numericamente estável mesmo com variações nos nomes dos concorrentes. Consultas do instituto Paraná Pesquisas também apontaram Lula liderando cenários em que enfrenta Jair Bolsonaro, Michelle Bolsonaro, Tarcísio de Freitas, Ciro Gomes e outras figuras da oposição, embora a disputa com o governador paulista em eventual segundo turno seja considerada mais apertada.
Ainda assim, avaliações recentes indicam sinais de desgaste, sobretudo em regiões onde o lulismo historicamente dominou com folga, como partes do Nordeste. Consultores políticos têm chamado atenção para uma percepção de “fraqueza do PT” e alertam para o risco real de derrota, caso o governo não consiga reconectar narrativa e resultados concretos na ponta. Críticas de veículos internacionais, como a revista The Economist, problematizam a decisão de Lula de insistir em novo mandato, destacando idade e fadiga de material como fatores a serem considerados na renovação da liderança de centro-esquerda no Brasil.
Ano de comparação e disputa de narrativas
Para o entorno do presidente, 2026 deve ser construído como um grande plebiscito sobre o projeto representado por Lula e sobre o ciclo aberto após a derrota de Jair Bolsonaro em 2022. A aposta é na comparação sistemática entre indicadores sociais, políticas públicas e ambiente institucional dos últimos anos, buscando apresentar o atual governo como antídoto à “extrema direita” e fiador da estabilidade democrática. Do outro lado, oposicionistas tentam colar em Lula a imagem de um líder que se apoia em gastos públicos, amplia a máquina estatal e utiliza a popularidade acumulada para prolongar um ciclo de poder, sem oferecer uma ruptura econômica consistente.
À medida que a pré-campanha avança, o desafio do presidente será manter o equilíbrio entre governar e pedir votos, evitando que o esforço pela reeleição paralise a administração e ao mesmo tempo convertendo realizações em capital político palpável. A largada em Salvador, diante de uma militância historicamente entusiasmada, é apenas o primeiro gesto de um ano em que o país voltará a se olhar no espelho da própria história recente para decidir se concede a Lula um novo capítulo em sua já extensa trajetória no comando do Planalto.
HostingPRESS – Agência de Notícias de São Paulo. Conteúdo distribuído por nossa Central de Jornalismo. Reprodução autorizada mediante crédito da fonte.

