A humanidade acaba de ganhar um vislumbre primordial de si mesma. Arqueólogos anunciam a descoberta da arte rupestre mais antiga conhecida, um painel de marcas abstratas em uma caverna remota, datado de cerca de 75 mil anos atrás, superando em muito os registros anteriores e reescrevendo capítulos da pré-história. Esculpidas por nossos ancestrais Homo sapiens na África do Sul, essas linhas entrecruzadas evocam um mundo de símbolos incipientes, onde o pensamento abstrato florescia muito antes do que se supunha. Tal achado não apenas expande o calendário da criatividade humana, mas questiona narrativas lineares sobre a emergência da cultura.
Localizada na caverna de Blombos, no litoral sudoeste sul-africano, a descoberta veio à luz durante escavações meticulosas lideradas por equipes da Universidade de Bergen, na Noruega, e do Iziko South African Museum. As marcas, gravadas em ocre, um pigmento natural avermelhado extraído de depósitos locais, formam um padrão geométrico de 23 linhas paralelas e curvas, com cerca de 4 centímetros de comprimento cada. Análises por datação por luminescência opticamente estimulada, que mede a última exposição à luz solar de grãos minerais, confirmam a idade: 73 mil a 75 mil anos. Anteriormente, o recorde pertencia a um disco de ocre riscado da mesma caverna, estimado em 73 mil anos, mas este novo painel exibe maior complexidade simbólica, sugerindo intenções deliberadas além de utilidade prática, como rituais ou comunicação proto-artística.
O contexto paleolítico enriquece o enigma. Blombos já havia revelado contas de concha perfuradas, ferramentas de osso e pigmentos moídos, indícios de um Homo sapiens anatomicamente moderno dotado de sofisticação comportamental. Essa arte antecede em dezenas de milhares de anos as pinturas figurativas de Lascaux ou Altamira, na Europa, e até mesmo os entalhes de Diepkloof, na África, datados de 60 mil anos. Pesquisadores argumentam que tais marcas representam um “comportamento moderno simbólico”, um marco na evolução cognitiva que permitiu aos sapiens diferenciar-se de neandertais e denisovanos, pavimentando o caminho para migrações globais e inovações culturais posteriores.
Implicações para a pré-história
O impacto transcende a caverna. Essa revelação reforça a teoria de que a África, berço da espécie humana, foi o caldeirão inicial da criatividade simbólica, desafiando eurocentrismos que datavam o “grande salto” evolutivo para apenas 40 mil anos atrás. Christopher Henshilwood, líder da expedição, postula que tais práticas artísticas facilitaram redes sociais complexas, essenciais para a expansão populacional e adaptação ambiental durante o Pleistoceno Médio. Evidências complementares, como conchas usadas como paletas de pigmento na mesma camada estratigráfica, sugerem um ecossistema cultural vibrante, onde o ocre servia não só para adornos corporais, mas para codificar significados abstratos, talvez xamânicos ou territoriais.
Críticas e debates animam o meio acadêmico. Alguns paleoantropólogos questionam se as linhas são intencionalmente artísticas ou meros subprodutos de preparo de pigmento. Testes microscópicos, porém, revelam pressão controlada e sequências não aleatórias, descartando desgaste natural. Comparações com artefatos de Pinnacle Point, a 100 quilômetros dali, indicam uma tradição regional de simbolismo que perdurou por milênios, alinhando-se a modelos de cognição gradual em vez de revolução abrupta.
Lições do passado profundo
Em tempos de aceleração tecnológica, essa caverna sussurra sobre a longevidade da imaginação humana. A arte rupestre não surge do ócio, mas da necessidade de transcender o imediato, de tecer narrativas que unem grupos e transcendem o efêmero. Ela nos recorda que a essência criativa, longe de ser apanágio moderno, brotou em mentes moldadas por escassez e mistério, sob tetos de pedra úmida. Preservar Blombos torna-se imperativo ético: mudanças climáticas e urbanização ameaçam esses arquivos fósseis, e sua salvaguarda demanda cooperação internacional.
Essa descoberta convida à humildade epistemológica. O que hoje parece primitivo pode encarnar os primeiros sussurros da metafísica humana, precursores de filosofias, religiões e artes que definem nossa era. Assim, das profundezas de uma caverna africana, emerge não só o passado mais antigo da arte, mas um espelho para o presente: a capacidade simbólica que nos torna humanos permanece viva, desafiando-nos a honrar suas raízes ancestrais com a mesma reverência com que foram traçadas.
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