Nas cozinhas brasileiras, ecoam há gerações os conselhos das avós: uma colher de alho com mel para espantar o resfriado, uma canja de galinha para restaurar as forças, um chá de gengibre para acalmar a garganta inflamada. Essas receitas caseiras, tecidas na trama do cotidiano familiar, carregam o peso de uma sabedoria empírica que atravessa décadas, senão séculos. Mas, em tempos de evidências científicas rigorosas, surge a pergunta inelutável: funcionam mesmo, ou são mera herança folclórica?
A combinação de alho e mel desponta como uma das mais celebradas. O alho, Allium sativum, libera alicina ao ser amassado, um composto sulfurado com propriedades antimicrobianas comprovadas em estudos laboratoriais, capaz de inibir bactérias e vírus como os da influenza. Quando misturado ao mel, rico em enzimas antioxidantes e com ação antibacteriana, o preparo ganha potencial imunomodulador, aliviando sintomas de infecções respiratórias superiores. Um ensaio clínico com 146 voluntários demonstrou que suplementos de alho reduziram em mais de 60% a incidência de resfriados em comparação ao placebo, totalizando menos dias de doença. Pesquisas israelenses em Pediatrics reforçam o mel isolado: administrado a crianças com tosse noturna, superou placebos na melhora do sono e na redução da frequência dos acessos, graças à película protetora que forma na mucosa faríngea. No entanto, esses benefícios coexistem com ressalvas: não há cura viral, apenas alívio sintomático, e o uso excessivo pode irritar o estômago ou interagir com anticoagulantes.
Outras pérolas da avó também resistem ao escrutínio científico. A canja de galinha, ícone do conforto em dias de mal-estar, libera cisteína durante a cocção, aminoácido que fluidifica o muco e inibe a migração de neutrófilos para tecidos inflamados, atenuando respostas imunes exacerbadas. Seu caldo quente hidrata, desinfeta vias aéreas e fornece proteínas, zinco e vitaminas que revigoram o organismo debilitado. O chá de limão com gengibre, outro clássico, beneficia-se do gingerol anti-inflamatório e da vitamina C do cítrico, que, embora não previna resfriados em doses alimentares, mitiga congestão nasal e dor de garganta em relatos clínicos. Camomila para insônia e arnica em emplastros para hematomas completam o rol, com estudos atestando efeitos sedativos e anti-inflamatórios, respectivamente.
Limites da tradição
A ciência valida muitos desses remédios como coadjuvantes valiosos, especialmente em quadros leves, mas impõe limites claros. Nenhum substitui antibióticos em infecções bacterianas graves ou vacinas em epidemias; o alho, por exemplo, não é panaceia antiviral contra patógenos como o SARS-CoV-2. Evidências são frequentemente de baixa qualidade, com amostras pequenas e heterogeneidade metodológica, demandando mais ensaios randomizados. Riscos emergem: alho cru agrava refluxo ou hemorragias, mel é tóxico para lactentes abaixo de um ano devido ao botulismo, e interações com fármacos como varfarina são reais.
Quando recorrer
Em uma era de farmacopeias sintéticas, as receitas da vovó oferecem não só alívio acessível, mas um contraponto humano diferente da medicina industrial. Funcionam para sintomas brandos, fortalecendo defesas naturais sem o peso de efeitos colaterais pesados. Consulte sempre um médico, especialmente grávidas, crianças ou crônicos; o ideal é integrar tradição e evidência. Assim, o legado das avós perdura, não como superstição, mas como ponte entre o ancestral e o comprovado, nutrindo corpo e alma com simplicidade ancestral.
HostingPRESS – Agência de Notícias de São Paulo. Conteúdo distribuído por nossa Central de Jornalismo. Reprodução autorizada mediante crédito da fonte.

