A morte cruel do cachorro comunitário Orelha, espancado por adolescentes na Praia Brava, em Florianópolis, continua a reverberar no imaginário coletivo brasileiro. Quase um mês após o episódio de 4 de janeiro, que culminou na eutanásia do animal no dia seguinte devido a ferimentos graves na cabeça, jovens criadores de todo o país transformaram sua indignação em versos poéticos. Esses poemas, compartilhados em redes sociais e plataformas digitais, emergem como forma de luto, denúncia e clamor por justiça, ampliando o debate sobre maus-tratos a animais e a responsabilidade juvenil.
Orelha, um vira-lata de cerca de dez anos, era ícone afetuoso da praia catarinense. Cuidado por moradores que lhe construíram casinhas e garantiam alimentação diária, o cão simbolizava a convivência harmônica entre humanos e animais na região nobre do Norte da Ilha. Imagens de sua agonia, registradas por testemunhas, viralizaram, expondo a brutalidade do ataque perpetrado por quatro adolescentes, identificados pela Polícia Civil de Santa Catarina. Três adultos, parentes dos suspeitos, foram indiciados por coação de testemunhas, enquanto a investigação prossegue com análise de celulares e depoimentos.
Nesse contexto de revolta nacional, que ganhou repercussão internacional em veículos como Infobae e France 24, a poesia jovem desponta como resistência criativa. Em perfis no Instagram e no X, adolescentes e jovens adultos publicam dopoes, poemas dopados, curtos e impactantes, no estilo que mescla spoken word com lirismo digital. Uma delas, a estudante paulistana de 19 anos Luana Ferreira, viralizou com seu cordel “Orelha Silenciada”, onde evoca a voz do cão: “Eu abanava o rabo na brisa da praia / Virou alvo de ódio, pancada na raia / Orelhas caídas, não de alegria / Mas de dor que o homem sem alma trazia”. O texto, postado com a hashtag #JustiçaPorOrelha, acumulou milhares de compartilhamentos e inspirou releituras em diversos sotaques regionais.
Em Florianópolis, epicentro do drama, o coletivo Poetas da Brava, formado por jovens locais entre 16 e 22 anos, organizou uma live de leitura coletiva. Sob o mote “Versos pela Patas”, eles declamaram composições originais que humanizam Orelha e questionam a impunidade. “Orelha não late mais, mas ecoa em rimas / Jovens como eu, por que tanta sina? / Deixamos o ódio virar nossa sina?”, recita o líder do grupo, Gabriel Santos, de 18 anos, em um dos poemas mais curtidos. A iniciativa, que reuniu mais de cinco mil espectadores, mescla elementos da cultura surfista local com referências à legislação ambiental, cobrando punições mais rígidas além do Estatuto da Criança e do Adolescente.
Não se trata de um fenômeno isolado. No Rio de Janeiro, a slammer mineira transplantada Clara Mendes, de 20 anos, performou “Pata Partido” em um sarau virtual, comparando Orelha a vítimas silenciadas da violência urbana: “Sua orelha ouvia o mar sussurrar paz / Golpe na cabeça, e o silêncio invadiu o espaço / Nós, jovens, rimamos para que a dor não se apague”. Seu vídeo, com batidas eletrônicas de fundo, rodou por fóruns de ativismo animal e chegou a senadores que, em plenário, citaram o caso para defender endurecimento de penas por maus-tratos. Até em Santa Catarina, escolas incorporaram o tema a oficinas de escrita, onde alunos compuseram lemas concisos: “Orelha caída / Pancada rouba o latido / Justiça, acorda”.
Psicólogos e educadores veem nesses dopoes um mecanismo terapêutico poderoso. “A poesia permite que os jovens processem o horror sem cair no ódio cego. É catarse coletiva, transformando dor em arte transformadora”, analisa a professora de literatura da UFSC, Dra. Elisa Ramos, que orienta workshops sobre o tema. Ela destaca como as rimas expõem contradições sociais: a Praia Brava, reduto de luxo, revelou fissuras morais profundas, onde adolescentes de famílias abastadas cometeram atos de zoosadismo, termo cunhado para designar prazer em torturar animais e que ganha tração em comunidades online.
A repercussão poética também pressiona as autoridades. A Polícia Civil descartou um dos suspeitos iniciais, mas avança na extração de dados dos aparelhos apreendidos. Moradores da Praia Brava realizaram protestos com murais poéticos, e a Associação de Moradores ergueu uma placa em homenagem a Orelha, inscrita com versos locais. Enquanto o inquérito segue, esses jovens poetas mantêm viva a memória do cão, provando que a palavra pode ser tão forte quanto o golpe que o calou.
Em um Brasil polarizado, onde tragédias animais mobilizam mais que algumas pautas políticas, os andamentos do caso Orelha unem gerações em um coro por empatia. Eles não apagam a perda, mas tecem uma rede de sensibilidade, lembrando que a verdadeira força reside na capacidade de sentir a dor alheia.
Marcelo Henrique de Carvalho, editor-chefe
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