Em 1901, um engenheiro espanhol lançou as bases do que hoje conhecemos como controle remoto, muito antes de a televisão chegar às salas de estar. Na virada do século XX, Leonardo Torres Quevedo, nome pouco conhecido fora dos círculos especializados, começou a desenvolver um sistema de comando à distância que batizou de Telekino, concebido para mover máquinas sem a presença humana a bordo. À época, não havia aparelhos de TV; o objetivo era testar, a partir do solo, balões dirigíveis e embarcações, reduzindo riscos em um contexto em que a tecnologia aeronáutica ainda engatinhava.
Torres Quevedo iniciou seus experimentos em 1901 e 1902, desenhando um dispositivo capaz de receber sinais por ondas eletromagnéticas e traduzi-los em movimentos mecânicos. Em 1903, ele registrou patentes na Espanha, França e Reino Unido para um “sistema dito Telekine, para comandar à distância um movimento mecânico”, definindo de forma pioneira os princípios de operação que sustentam o controle remoto moderno. O nome Telekino, formado pelos radicais gregos tele (à distância) e kine (movimento), não poderia ser mais preciso: tratava-se justamente de produzir movimento sem contato físico direto, antecipando de forma surpreendente a lógica que, décadas depois, permitiria trocar de canal do sofá.
Os primeiros testes práticos foram quase prosaicos na aparência, mas revolucionários em conceito. Torres Quevedo começou com um simples triciclo, que ele fazia avançar, recuar e mudar de direção por meio de comandos transmitidos pelo ar, a alguns metros de distância. Em seguida, decidiu aplicar a tecnologia a um pequeno barco, realizando provas em 1905 e 1906 em um lago na Casa de Campo, em Madri, e no estuário de Bilbao. Nesses experimentos, chegou a controlar, a mais de dois quilômetros, um bote com oito pessoas a bordo, guiando-o desde a margem com absoluta precisão, o que impressionou tanto o público quanto autoridades presentes.
O ponto alto dessa trajetória deu-se em 25 de setembro de 1906, quando o inventor apresentou o Telekino no porto de Bilbao diante do rei Afonso XIII e de uma multidão curiosa. A embarcação Vizcaya, equipada com o sistema de recepção, obedecia às ordens enviadas por Torres Quevedo, que permanecia em terra, demonstrando que era possível controlar um veículo sem qualquer conexão física aparente. Relatos da época descrevem o espanto dos presentes, habituados a associar comando e controle à presença humana direta, e evidenciam como a experiência abriu caminho para aplicações em campos tão distintos quanto a navegação militar e, mais tarde, a eletrônica de consumo.
A ambição de Torres Quevedo, no entanto, ia além de demonstrações públicas. Ele tentou convencer o governo espanhol a financiar o uso do Telekino em torpedos submarinos, vislumbrando uma aplicação que combinava inovação tecnológica e estratégia de defesa. O pedido de apoio foi negado, e o projeto acabou interrompido por falta de recursos, o que contribuiu para que seu nome ficasse à margem de narrativas mais populares sobre a história do controle remoto. Ainda assim, as bases técnicas estavam lançadas: um transmissor que enviava sinais codificados e um receptor que os interpretava como comandos distintos, lógica que se manteria no rádio-controle de aviões, no acionamento remoto de bombas durante guerras e, mais tarde, nas salas de estar, diante da televisão.
Quando a TV começava a se popularizar, já na década de 1950, a ideia de comandar o aparelho à distância renasceu com outro rosto e outra função. Em 1950, a Zenith Radio Corporation apresentou o Lazy Bones, primeiro controle remoto para TV, ligado por um cabo ao aparelho, permitindo trocar de canal sem sair do sofá, ainda que ao custo de um fio atravessando a sala. Poucos anos depois, em 1955, a mesma empresa lançou o Flash-Matic, primeiro controle remoto sem fio para televisores, que utilizava um feixe de luz direcionado a células fotoelétricas nos cantos da tela. Era tecnicamente rudimentar, sujeito à interferência da luz solar, mas simbolizava, em linguagem doméstica, a mesma ambição que movera Torres Quevedo meio século antes: comando à distância, conforto e controle.
Em 1956, o engenheiro Robert Adler refinou o conceito com o Space Command, um controle que usava ultrassom para alterar canal, volume e ligar ou desligar o aparelho, tornando-se padrão na indústria por décadas. A partir daí, o controle remoto passou a integrar o imaginário da vida cotidiana, evoluindo para tecnologias infravermelhas, sinais de rádio, Bluetooth e comandos por voz, mas mantendo o princípio fundador de um transmissor dialogando com um receptor, tal como no Telekino. A distância que separa um bote no porto de Bilbao de um sofá em frente a uma televisão é grande no tempo e no contexto, mas curta do ponto de vista técnico.
Em 1901, portanto, um espanhol não inventou o controle remoto da televisão tal como o conhecemos, até porque o próprio meio televisivo ainda não existia. O que Leonardo Torres Quevedo realizou foi algo mais sutil e estrutural: criou o primeiro sistema funcional de controle remoto sem fio para máquinas, estabelecendo os alicerces conceituais e técnicos que, décadas mais tarde, permitiriam que telespectadores de todo o mundo comandassem suas TVs com um simples apertar de botão. A história do controle remoto, assim, começa muito antes da tela acender.
Marcelo Henrique de Carvalho, editor-chefe
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