Uma onda de indignação varreu as ruas de São Paulo e outras capitais neste fim de semana, com protestos organizados por coletivos de defesa animal exigindo justiça no caso do cão comunitário Orelha, espancado brutalmente na Praia Brava, em Florianópolis, e sacrificado por eutanásia devido à gravidade dos ferimentos. Na Avenida Paulista, ponto central das manifestações na capital paulista, centenas de pessoas se reuniram em frente ao MASP, erguendo cartazes, faixas e balões pretos em memória do animal, que se tornou símbolo de uma luta maior contra a impunidade em crimes de maus-tratos a animais.
A Avenida Paulista vira palco de luto e revolta
Neste domingo, 1º de fevereiro, o vão livre do MASP foi ocupado por protetores independentes, ONGs como o Instituto Amor em Patas e influenciadores digitais que viralizaram o caso nas redes sociais. Vestidos predominantemente de preto, os manifestantes entoavam em coro “Justiça por Orelha”, enquanto megafones denunciavam a crueldade dos agressores e cobravam punições exemplares.
Nadinin Marini, presidente do Instituto Amor em Patas, descreveu o ato como uma “sensação única”, reunindo pessoas de diferentes origens em torno de um propósito comum: visibilidade para casos que passam despercebidos e responsabilização efetiva. Performances artísticas, distribuição de panfletos com canais de denúncia e a presença de cães de estimação dos participantes reforçaram o caráter familiar e pacífico da manifestação, que durou cerca de duas horas sem incidentes.
O caso que chocou o Brasil
Orelha, vira-lata de cerca de 10 anos, vivia sob os cuidados de uma comunidade na Praia Brava, uma das áreas nobres de Florianópolis. No dia 4 de janeiro, o animal foi agredido por um grupo de adolescentes de classe média alta, que o espancaram com objeto contundente na cabeça, conforme laudo pericial, e tentaram afogá-lo no mar. Um segundo cão, Caramelo, escapou de tentativa similar.
Devido aos ferimentos graves, Orelha precisou ser sacrificado um dia depois, fato que gerou comoção nacional e pressão por investigação rápida. A Polícia Civil de Santa Catarina identificou quatro adolescentes como principais suspeitos, via imagens de câmeras de segurança e testemunhas; um deles foi descartado após análise. O caso tramita na Delegacia de Atendimento ao Adolescente em Conflito com a Lei (DEACLE), com auto de apuração de ato infracional aberto, mas sem data para oitiva dos envolvidos.
Protestos em cadeia nacional
O ato na Paulista foi parte de uma mobilização simultânea em várias cidades. No Rio de Janeiro, Belo Horizonte, Brasília, Florianópolis, Porto Alegre, Vitória, Manaus, Curitiba, Campinas, São José do Rio Preto e Araçatuba, grupos semelhantes ocuparam praças e avenidas, vestidos de preto e com faixas como “A vida dos animais importa” e “Justiça pelo Orelha”. Em Florianópolis, o epicentro do crime, o protesto reuniu artistas locais e reforçou a cobrança por fiscalização rigorosa na praia.
Em Campinas, uma caminhada no Taquaral culminou na entrega de documento à prefeitura, assinado por manifestantes, pedindo ações contra maus-tratos. No Paraná, atos em Curitiba e outras cidades ligaram o caso à morte de outro cão comunitário, Abacate, ampliando o debate.
Reivindicações e debate sobre punição
Além da punição imediata dos agressores, os manifestantes cobraram a redução da maioridade penal, penas mais severas para maus-tratos e federalização de investigações desse tipo, para evitar impunidade em casos de repercussão nacional. A crueldade do episódio, com espancamento e tentativa de afogamento, reacendeu discussões sobre a Lei Sansão, que elevou penas para crimes contra animais, mas ainda enfrenta críticas por brechas em atos infracionais.
Políticos simpáticos à causa animal compareceram aos atos, enquanto ONGs destacam que Orelha representa milhares de casos invisíveis. A Polícia Civil catarinense segue com perícias, incluindo laudo de corpo de delito do animal, mas a pressão popular exige agilidade e condenação exemplar.
Mobilização que transcende o caso individual
O que começou como um vídeo chocante compartilhado nas redes evoluiu para um movimento nacional, unindo protetores, famílias e cidadãos comuns na defesa de uma sociedade mais empática com os vulneráveis. Em São Paulo, o ato na Paulista não só visibilizou a dor da comunidade da Praia Brava, mas reacendeu o clamor por mudanças legislativas que tratem maus-tratos como crime hediondo, independentemente da idade dos autores.
Enquanto as investigações prosseguem, Orelha permanece como ícone de uma luta que vai além de um cão comunitário: pela dignidade animal e pela intolerância à violência gratuita em um país que ainda debate os limites da crueldade impune.
Marcelo Henrique de Carvalho, editor-chefe
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