A retirada dos últimos orelhões do país deixa de ser apenas uma hipótese e passa a integrar, oficialmente, a agenda regulatória brasileira. A Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel) confirmou que os telefones públicos começarão a ser removidos de forma sistemática das ruas a partir deste mês, em todo o território nacional, após o encerramento das concessões de telefonia fixa das principais operadoras, ocorrido em 2025. Com isso, chega ao fim um ciclo que atravessou mais de cinco décadas e moldou a paisagem urbana, sobretudo nas grandes cidades, onde o orelhão se transformou em ícone do mobiliário público.
Fim de uma era telefônica
De símbolo de universalização da comunicação a peça de museu em poucos anos: essa é, em linhas gerais, a trajetória recente dos orelhões no Brasil. Dados da Anatel mostram que, em 2020, o país ainda contava com cerca de 202 mil aparelhos instalados em vias públicas; hoje restam por volta de 38 mil, entre ativos e em manutenção, espalhados por diferentes estados. A retirada definitiva começa agora porque, com o fim das concessões de telefonia fixa, as operadoras deixam de ter a obrigação contratual de manter a telefonia de uso público, passando a atuar predominantemente sob o regime de autorização.
A agência reguladora determinou, como contrapartida pela desativação dos orelhões, que os recursos antes destinados à manutenção desses equipamentos sejam realocados para investimentos em redes de banda larga e telefonia móvel, tecnologias que hoje concentram a maior parte do tráfego de voz e dados no país. O movimento acompanha uma tendência global de substituição da infraestrutura analógica por sistemas digitais, em um contexto em que o acesso ao celular e à internet se tornou majoritário entre a população brasileira.
Onde os orelhões ainda resistem
Embora o anúncio marque o início da retirada em massa, a extinção não será instantânea: parte dos aparelhos ainda será mantida em localidades onde o telefone público permanece como única alternativa de comunicação por voz. Nessas áreas, especialmente em municípios pequenos ou regiões com baixa cobertura de rede celular, a Anatel prevê a permanência de orelhões até 2028, de acordo com regras pactuadas com operadoras como Vivo, Oi e Algar.
Levantamentos recentes indicam que, em dezembro de 2025, o Brasil registrava cerca de 38,4 mil orelhões, número bem inferior aos mais de 200 mil aparelhos existentes no início de 2020. Em estados como São Paulo, que segue liderando em quantidade absoluta, a maioria dos equipamentos ainda funcionais já opera com demanda mínima, com redes de telefonia móvel praticamente universalizadas nos centros urbanos. Em outros, como Espírito Santo, o parque remanescente é diminuto, com poucos aparelhos ativos e parte relevante em manutenção.
Queda de uso e mudança de hábitos
O declínio do orelhão acompanha a expansão vertiginosa do celular. Em 2024, o Brasil registrou 168 milhões de pessoas de dez anos ou mais conectadas à internet, equivalentes a 89,1% desse contingente populacional, e 167,5 milhões com telefone celular para uso pessoal, o que corresponde a 88,9% do total. Paralelamente, operadoras relatam que muitos telefones públicos passaram a registrar menos de uma chamada por dia, com queda de uso superior a 90% em alguns casos ao longo dos últimos cinco anos.
A combinação de linhas móveis em abundância, aplicativos de mensagens e tarifas mais competitivas tornou o orelhão um dispositivo residual, acionado sobretudo em situações pontuais ou em regiões onde a conectividade ainda não se consolidou. Para as empresas, manter uma rede de milhares de aparelhos pouco utilizados, espalhados por longas distâncias e sujeitos a vandalismo, deixou de ser economicamente viável diante da nova configuração do mercado.
Patrimônio de memória e de design
Se do ponto de vista técnico o orelhão se tornou obsoleto, sua dimensão simbólica continua forte. Os telefones públicos ganharam notoriedade a partir da década de 1970, com a adoção do casco em formato de concha projetado pela arquiteta e designer Chu Ming Silveira, imigrante chinesa radicada no Brasil desde 1951. Quando chefiava o Departamento de Projetos da Companhia Telefônica Brasileira, ela recebeu o desafio de criar um protetor para telefones públicos que fosse funcional, resistente às intempéries e ao mesmo tempo harmonizado com o mobiliário urbano.
O modelo batizado informalmente de “orelhão” foi inspirado na forma do ovo, considerada pela arquiteta como uma das melhores soluções acústicas para abrigar o usuário e reduzir ruídos externos. Com o tempo, a peça se transformou em referência de design brasileiro e passou a integrar exposições, publicações especializadas e acervos de museus, consolidando-se como ícone de uma era pré-smartphone.
Do espaço público ao espaço da memória
A retirada dos últimos aparelhos abre espaço para um novo debate: o que fazer com um objeto que, apesar de tecnicamente superado, ocupa um lugar de destaque na memória coletiva. Algumas operadoras e instituições culturais já manifestaram interesse em preservar exemplares históricos para acervos e exposições dedicadas à história das telecomunicações. Museus e centros de memória planejam incorporar o orelhão a narrativas que reconstituem o cotidiano das cidades brasileiras em tempos de comunicação analógica.
Ao mesmo tempo, iniciativas locais têm ressignificado carcaças desativadas, transformando-as em suportes para intervenções artísticas, pequenos jardins urbanos ou pontos de troca de livros, reforçando o caráter afetivo desse mobiliário. Entre o fim prático de um serviço e a permanência simbólica de um objeto, o orelhão transita do espaço funcional para o campo da memória, como vestígio concreto de uma fase em que falar ao telefone era, muitas vezes, um ato público, feito à beira da calçada, em plena rua.
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